Catalunha celebra feriado com cadeiras vazias e manifestações ‘estáticas’

Celebrar uma derrota a cada 11 de setembro. É essa a curiosa gênese da festa mais importante da Catalunha, a Diada ou Dia Nacional da Catalunha — hoje, marcada por comemorações adaptadas a tempos covidianos, em petit comité e sem as manifestações massivas de outros anos.

Uma das imagens importantes do dia mostra 2.850 cadeiras vazias diante do Arco do Triunfo, no centro de Barcelona. A intervenção é obra da organização catalanista Òmnium Cultural, e contou com a presença do governador Quim Torra e poucos outros.

Manifestação do Dia Nacional da Catalunha, 2015 (Albert Gea / Reuters)

Cada cadeira representa um personagem da vida pública catalã perseguido pela justiça, preso ou exilado, à raiz dos embates independentistas dos últimos anos.

CELEBRANDO A DERROTA

A Diada nasceu no final do século 19 a partir de uma homenagem aos mortos na batalha que levou à rendição da cidade de Barcelona em 1714, durante a Guerra de Sucessão Espanhola (1701 – 1714).

A festividade foi suspensa durante a ditadura franquista — que, de resto, castrou basicamente qualquer manifestação cultural e/ou política catalã –, e foi ressuscitada após a morte de Franco, entre 1975 e 1976.

Celebração do Dia Nacional da Catalunha, 1914 (11.set.14 / Biblioteca da Catalunha)

Desde então, principalmente nos últimos anos, a data passou de uma manifestação cultural-histórica a ser associada também aos movimentos ligados ao independentismo.

INDEPENDENTISMO

Lembro da minha primeira Diada ‘completa’, caminhando entre mares de listras vermelho-amarelas de pessoas embrulhadas na “Estelada” (“Estrelada”) ou na “Senyera” (“Insígnia”), as duas bandeiras catalãs.

Manifestação no Dia Nacional da Catalunha no centro de Barcelona, 11 de setembro de 2017 (Susana Bragatto / Folhapress)

Naqueles idos de 2017 a.C. (antes de Covid), os ânimos independentistas estavam muy acirrados. Quase 2 milhões de pessoas foram às ruas, em manifestações relativamente pacíficas, mas contundentes.

Logo depois, viria o referendo popular, quando 42% da população foi às urnas e votou massivamente (80%) pela independência. Na véspera da votação, tensão no ar, meu (então) namorado passou a noite numa escola, com ziles de outros pais e funcionários. O objetivo: defender as urnas da polícia.

Controle policial no Dia Nacional da Catalunha em Barcelona, 11 de setembro de 2017 (Susana Bragatto / Folhapress)

Essa distinta, hmm, habilidade coletiva de organizar protestos de maneira razoavelmente pacífica também se viu hoje nas (exatas) 131 manifestações convocadas pela Assembleia Nacional Catalã (ANC).

No total, aproximadamente 60 mil pessoas participaram dos atos “estáticos” (sem passeatas) distribuídos por todo o território catalão. Nas menores, em pueblos, talvez uma dúzia de pessoas; na maior, em Badalona (Grande Barcelona), 1.700.

Os números, alega a própria ANC, foram determinados em função das áreas disponíveis, para que se pudesse manter a distância de 4 metros quadrados entre os manifestantes. Em alguns lugares, desenhos no solo da fita amarela, símbolo do movimento independentista, foram utilizados para marcar o lugar de cada participante. Tinha até cadeira pros idosos, devidamente embrulhados em suas bandeiras e paninhos de pescoço. Catalan style.

Dia Nacional da Catalunha, 2014 (Albert Gea / Reuters)

Lá do governo central de Madri, o premiê Pedro Sánchez e o vice-presidente Pablo Iglesias tuitaram seus apoios à Diada, não sem aproveitar pra puxar a capivara do discurso unionista: “a partir do diálogo dentro da Constituição, seguiremos trabalhando para impulsionar o reencontro na Catalunha”, escreveu Sánchez.

Oriol Junqueiras, presidente da Esquerra Republicana e role model do independentismo catalão, aproveitou o ensejo pra insistir no contrário: “Apesar da repressão, seguimos determinados a conseguir a independência”. O cartaz do partido é direto: “Voltaremos a vencer (…) Preparemo-nos para ser mais e ganhar a república catalã”.

 

Em Barcelona, diante da estátua de Rafael Casanova (herói catalão da Guerra de Sucessão), onde a cada 11 de setembro se realizam oferendas de flores, compareceram apenas os representantes de partidos e organizações civis e uns poucos gatos pingados.

Ada Colau, prefeita de Barcelona, apareceu com máscara de arco-íris e blazer vermelho, contrastando com a hegemonia dos terninhos azuis.

E o que disse me pegou pelo pescoço e me jogou no twist da volta-à-realidade-crua-e-nua do que nos espera: “[vamos] transformar a Diada em uma oportunidade para cuidarmos uns dos outros e reunir forças, porque vêm aí meses difíceis e vamos todos precisar dar o melhor de nós”. Sim, sim.