As crias são o pecado do corazón

ILARILARIÊEEE O OOO OOOOOO…

Eu tava concentrada na cozinha preparando uma espécie de pseudoratatouille experimental com mirtilos e riquíssimas azeitonas negras de Aragón, umas miudinhas que tradicionalmente são curtidas no próprio azeite com ervas bruxísticas, quando escutei a Xuxa na sala de casa.

Corri pra ver e dei com meu compañero de apê catalão e sua namorada peruana olhando extáticos a tevê.

Foi só aí que comecei a entender que quase todo mundo no mundo mundial criado entre os 1980s e 1990s sabe cantar e pular com a turma da Xuxa. Famosa do Peru à China. Sorry, cheguei tarde nessa grande verdade da vida.

Faço um teste, mostro pro namorildo español e ele completa a letra: es la hora, es la hora… [insert minha cara de estupefação].

Pois falando em hora, já levamos quase um mês aqui na Espanha vivendo com toque de recolher todos os dias.

O governo central estipulou o padrão nacional mínimo de 23h a 6h, mas as comunidades autônomas podem personalizar suas medidas.

Tudo numa tentativa de frear a tal Segunda Onda, que levou o país a um ápice de contágios superior ao da Primeira Onda em poucas semanas depois do verão (brazilêros do meu corazón, contemplai o que vos espera, ficai em casa!!!).

Nas ruas de Barcelona, a partir das 22h, 23h num tem nem ratazana dessas gordas alienígenas que às vezes aparecem no centro. Os bares e restaurantes seguem fechados até segunda que vem (23). Así que estar fora de casa perto do curfew (ou depois, se tem justificativa) é uma experiência, eeehr, transcensubdental.

Outro dia eu voltava pra casa e, como faço muitas vezes, peguei um caminho alternativo (gosto de ir variando rotas). Silêncio. Ninguém. Ventava. Notei demais o cimento monocromático na calçada, as luzes dos postes listrando meus passos, a pulsação nas têmporas.

As persianas de ferro, as placas de “aluga-se” ou “passa-se o ponto” e os letreiros apagados cintilavam em negativo: uma cidade apagada, desenchufada, que alguém tirou da tomada. As casas caladas, as esquinas desertas. Pela primeira vez desde meus primeiros tempos em Barcelona, senti um certo medo de estar na rua àquela hora.

Olhei o relógio: eram exatamente nove-e-quarenta-e-dois da noite de uma terça-feira.

***

Segunda onda é pros fracos, aqui tão falando da terceira ou quarta no ano que vem.

Com o fechamento de estabelecimentos e, principalmente, com o toque de recolher, que por enquanto segue valendo por tempo indeterminado, o quadro de Covid espanhol lentamente começa a melhorar. De novo.

Eu fico pensando que deve ser mau sinal: sinal de que, enquanto não houver vacina, nos espera um vai-y-volta de medidas restritivas.

Neste Natal só poderemos nos reunir em grupos de até 6 a 10 pessoas de convívio próximo (tá, tá). E, no Ano Novo, todo mundo vai ter que estar em casa às 22h.

Ontem à noite eu parei (outra rota…) diante de uma vitrine de loja com uma decoração de Natal tão gritantemente caprichada, com ursinhos e luzes e bolotas coloridas e delicados laços em rosa antigo sobre pinheiros nevados, que me deu uma grande conmoción.

Lembrei de uma cena longínqua. Num bar.

Tomando um verdejo. Acho que foi no mesmo dia desse causo. No banheiro, topo com um senhor andaluz um tanto borracho (aka bêbizdo). Não encontro o interruptor. E ele me diz, calmamente:

— Hay que buscar con el corazón, hija.

Es la hora, es la hora…