A fila da vacina espanhola

Quando, afinal, estaremos todos vacinados contra o vírus?

Enquanto eu penso nas milhares de andorinhas que morreram de frio no início do ano na Espanha por conta da passagem da borrasca Filomena, deixo a roleta rolar.

E ela vaticina: a se julgar pelas 3487098 variáveis atuais do andar-da-carruagem-covidiana, eu euzinha euzoca só vou receber a primeira dose da vacina entre o verão deste ano e março de 2022.

A predição é da omni calculator, uma startup polonesa com um time de brilhantes jovens cientistas de diversos países dedicados a criar calculadoras de todo tipo em áreas tão diversas como saúde, construção e esportes.

A “Calculadora da Fila da Vacinação na Espanha” é uma dessas beleziñas (infelizmente, ainda não há uma dessas pro Brazil zil).

Desenvolvida por Dominike Miszewska e Álvaro Díez Gepe, dois jovens estudantes de Medicina e Física de Partículas (!), respectivamente, a interface combina parâmetros mais gerais (faixa etária, condições de risco, local de residência) com três diferentes projeções da taxa de vacinação (governo, atual e personalizada).

De acordo com a calculadora, por exemplo, um profissional da área de saúde teria, neste exato instante, pouco menos de 500 mil pessoas à sua frente na fila da vacinação.

Levando em conta a taxa de aceitação popular da vacina (79%) e a atual previsão do governo de distribuir em torno de 1.513.890 doses por semana, essa pessoa receberia, portanto, sua primeira picada antes do final de fevereiro.

Além disso, toda a população estaria vacinada em 10 meses, isto é, até novembro deste ano. Note-se: estamos falando da previsão otimista unicórnica do governo espanhol.

Aplicando-se a taxa real de vacinação do momento, que é muito mais baixa (aproximadamente 312.356 doses por semana), essa mesma pessoa seria vacinada mais ou menos na mesma época, por conta da estratégia do governo de acelerar a vacinação para este perfil e postergar a vez daqueles que foram infectados nos últimos 6 meses.

Por outro lado, a população espanhola como um todo só estaria imunizada no prazo de quatro QUATRO anos.

Pausa para um silêncio mortal e o arrulho, sei lá, de andorinhas, cá em terras españolas chamadas de golondrinas.

((Outra pausa para um pensamento flash: ce sabia que o número quatro (SHI) é considerado de mau agouro no Japão? Porque a pronúncia lembra muito a palavra morte. Ora, ora, com isso não quero insinuar nada, a não ser que, nesta sexta-feira nublada, depois de me empanturrar de sekihan, minha cabeza está meio overderivadadativa))

A mesma projeção acima valeria para uma pessoa idosa vivendo em um asilo, ou para qualquer pessoa de um grupo de risco: a ideia é ter todo esse pessoal vacinado até março.

Desde que começou a campanha, no final de dezembro, a Espanha já administrou a vacina para 23% da população prioritária, que em seu total corresponde a 2,5 milhões de pessoas ou 5,3% da população nacional.

O ritmo de vacinação tem sido emocionantemente irregular, mas na última semana o país fez um corre e os imunizados saltaram de 173 mil a quase 600 mil.

Na Catalunha, 90% dos residentes de casas geriátricas já receberam pelo menos a primeira dose da vacina.

Enquanto isso, a gente segue o baile com o confinamento por regiões e toque de recolher às 22h, além de bares e restaurantes funcionando em horários restritos e policiais tentando inutilmente vigilar jovens/famílias/pterodáctilos fazendo piquenique com uma cervejinha ou vinhozinho no parque da Ciutadella, cartão-postal de Barcelona.

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A história das andorinhas me fez pensar em um de meus livros preferidos ever, de Jorge Amado: “O gato malhado e a andorinha Sinhá”, de 1948, ilustrado pelo glorioso Carybé, o mais baiano dos argentinos. Aqui na Espanha, traduzido como “El gato manchado y la golondrina Sinhá”. Um amor impossível, fátuo como um verão a mais, eterno como nossos dias…