Jovem espanhola viraliza com discurso de ódio

Espanha, ano do boi de metal do calendário chinês. No mesmo dia em que o rapper Pablo Hasél foi preso, provocando uma série de manifestações pela liberdade de expressão em todo o país, outro “ícone” jovem ascendeu ao pódio midiático e virótico das redes.

Mas por motivos bastante diversos.

Foi no último sábado (12), em Madri, durante um evento de umas 300 pessoas convocado pela organização neonazista Juventude Patriota.

Durante o ato –uma homenagem à Divisão Azul, formada por voluntários espanhóis que lutaram na Segunda Guerra Mundial sob as ordens de Adolf Hitler –, assume o microfone uma moçoila.

Entre outras pérolas, ela mandou esta: “O inimigo sempre vai ser o mesmo, ainda que com distintas máscaras: o judeu. Porque não há nada mais certeiro do que esta afirmação: o judeu é o culpado.”

Ora, que loucura, um cara preso por cantar contra a monarquia e uma adolescente solta fazendo Heil Hitler de rouge allure.

Pera. Antes de seguir, contemplem:

Vejam a foto e me digam se a carinha de influencer do Instagram não é, infelizmente, parte inapelável do show.

Junto com a aparência, as caras e bocas com que pontua seu discurso viraram meme, comentário, presença replicada por 1308741708 em nossas retinas cansadas de tanta notícia.

(e por mim aqui também, porque, não, a gente não pode deixar quieto)

Claro que viralizou, a desgraçada.

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Isabel Medina Peralta, 18, estudante de História, é filha de Juan Manuel Medina, atual membro do Partido Popular. Trata-se de um direitista de carteiriña, com passado vinculado à Aliança Nacional, partido neonazista espanhol.

Pois, pasme, esse pai ultraconservador (e é ela quem conta em uma das muitas entrevistas que ‘ganhou’ nos últimos dias) a expulsou de casa, alarmado e farto de tentar tirar os nazilivros de suas mãos. “Meus pais não me dirigem a palavra”, disse.

Com a imediata viralização do discurso antissemita da jovem esta semana, alguns foram logo conectando a nazitrupe ao Vox, partido de ultradireita espanhol, afeito a discursos xenófobos, homofóbicos e racistas.

Em uma conta do Twitter que desde então foi encerrada pela plataforma, Peralta retrucou: nananina. “Eles [Vox] são sionistas, capitalistas, democratas e constitucionais. Nós, não”. Ahtá.

O baile contraditório de -ismos e outros supersuprainfraconceitos nas falas da xovem me dão cócegas. Tristeza. Histeria. Horror.

A menina se declara “fascista”, mas partidária de um “regime socialista”.

Ela nega, no entanto, a alcunha de “influencer nazi” que algum órgão de imprensa lhe deu. “Nunca me definiria como nazista”, disse, em entrevista ao jornal El Español, que a apelidou de “musa falangista”, em referência ao a uma das primeiras agremiações políticas fascistas da Espanha. “Me considero nacional-socialista e fascista, mas, pra mim, nazi é só um rapado que aparece nos filme de Hollywood”.

Hmm.

Anote, que vem então a receita infalível pra ser um bom nacional-socialista-não-nazi: “nele, impera a elegância, escuta Wagner (sic), não se dedica a bancar o malandro ou ao vandalismo, mas luta por uns ideais e segue firme com eles”.

Antes de ser justamente expelida das redes sociais, Peralta chegou a brindar o universo com outras atrocidades. “Nossa civilização se afunda no ocaso de um arco-íris nauseabundo”, tuitou, numa wagneriana trovinha homofóbica.

Em outros momentos, chamou imigrantes de “bazófia (lixo, resto)” que se dedica a “violar e roubar”, declarou ser racista (“não estou a favor da mestiçagem”…..ಠ_ಠ!!), contra o feminismo (“desvirtua a mulher e a manipula”), e por aí vai, porque chega de dar ibope pra tanta mierda.

Não, não podemos tratá-la simplesmente como uma jovem ensandecida de batonzinho vermelho. Infelizmente, é muito mais do que isto. Atrás de uma ‘influencer’ dessa vem gente bailando com a flautinha de Hamelin.

A Federação de Comunidades Judaicas da Espanha (FCJE) condenou o discurso de Peralta e demandou uma investigação pública por crime de ódio.

Isabel, do hebreu Elisheba. Peralta, de Pedralta, zona alta de Navarra, e Medina (cidade, em árabe) –ambos, sobrenomes toponímicos adotados por muitos judeus sefarditas ao longo dos séculos.